quarta-feira, 19 de junho de 2019

PENSANDO O MUNDO


Neste espaço ruidoso, às vezes sério, como agora pretendo, deixei-vos há dias a frase «salvar o planeta é a luta das nossas vidas», devidamente identificada. A frase, emoldurada de amarelo e salpicada de chapéus-de-chuva ou de chapéus-de-sol – a moldura não é inocente –, é da autoria de António Guterres, Secretário-geral das Nações Unidas.

Antes disso, muito antes, tinha-vos deixado o seguinte poema:
Mudança
29 de Outubro de 2017

Ah, como seria bom se os homens mudassem
com a mesma facilidade com que se muda a hora
e a hora da mudança fosse já amanhã!...
Quantas almas serão precisas para acalmar o sem-fim da avidez?
Quantos pássaros definharão no céu derramando-se no infinito?
Quantas nuvens morrerão em agonia?
Quantas mães verão secar a vida dentro de si?
Quantas fontes serão estranguladas na passagem?
Quantos pais morrerão na travessia?
Quantos filhos nunca serão Homens?
Quantos Homens tentarão a mudança?
Quantos Homens a quererão?
Quantos?…

Por razões óbvias, o poema teve menos impacto, mas ambos, frase e poema, evocam o mesmo problema.
Ora, em minha opinião, a questão fundamental é mesmo esta, quantas pessoas pretendem a mudança e quantas estão de facto dispostas a concretizá-la!? É que, como sabemos, expressar a vontade de fazer algo, é muito diferente de a concretizar. E nesse campo...
Um filme de Hollywood, protagonizado por Keanu Reeves, O dia em que a Terra parou, não sendo uma obra de arte, é elucidativo de quem somos, como reagimos à diferença, como reagimos ao outro, como tratamos o planeta e tudo aquilo que faz dele a maravilha que é. 
Noutros contextos, quando se abordam questões relacionadas com os objectivos de vida das gerações que nos sucedem, alguns de nós acreditam que não existem. Discordo! Se uns tiveram a Revolução Francesa, a Revolução Russa e o 25 de Abril; outros, a 2ª. Grande Guerra, a Guerra do Vietname, o Maio de 68 ou a Queda do muro de Berlim; esta geração. Os líderes do amanhã, tem pela frente a mais difícil das guerras, a que se prende precisamente com a preservação do planeta. Porém, não querendo ser o mensageiro do apocalipse, devo dizer-vos que esta é uma guerra perdida.
Aqueles que realmente traçam os destinos no mundo, certamente os Grupos de Bilderberg e os seus congéneres há muito que o sabem, pelo que não é por acaso que a corrida para Marte se apressa a mover milhões de dólares.
Sendo certo que algo tem de ser feito, os passos que se vão dando, são demasiado lentos considerando a gravidade da situação. 
Falei-vos no filme porque, não sendo possível de conseguir o que aí se retrata, só nos resta a continuação da poluição - viver é poluir - até à exterminação das espécies, o que sucederá muito mais cedo do que se esperava. O planeta, apesar da tortura a que diariamente é submetido, há-de sobreviver e de dar início a outro ciclo de vida.
Há vozes que se vão fazendo ouvir, e bem, diga-se, mas não creio que umas faltas às aulas acompanhadas de umas palestras nas Nações Unidas, altere o que quer que seja, tendo em conta a escassez de tempo.
As eventuais alterações de hábitos de vida colocam-nos desafios que são transversais a outras mudanças que se vão concretizando, como a robótica ou a inteligência artificial, cujos dilemas daí resultantes ninguém parece preocupado em resolver, nomeadamente a questão do desemprego. Infelizmente é uma postura muito humana, primeiro criam-se os problemas e só depois se procuram as soluções.
No poema, refiro a mudança e quantos a quererão. É esse o ponto fulcral. Coloquemos, pois, as questões que têm de ser consideradas, ainda que algumas delas não passem de banalidades. Para uma recuperação rápida do planeta quantas pessoas estão dispostas a reduzir o número de banhos, a lavar-se com água e sabão, abdicando de champôs, cremes, esfoliantes e pinturas, a reduzir o número de pares de sapatos e de jeans, a deslocar-se em transportes públicos, a aterrar a piscina que se exibe no quintal, a substituir o plástico pelo vidro, a abdicar da comida rápida (e dos químicos que a compõem), a abdicar de mochilas e dos novos estojos a cada ano escolar, assim como das canetas das mais variadas cores e feitios, a trocar de automóvel de dois em dois anos, do ar condicionado, etc., etc., etc. 
Como referi, são exemplos triviais, mas que ilustram muito bem as excentricidades de que nos rodeamos, que parecendo de pequena monta, tomam dimensões astronómicas no que respeita ao desperdício dos recursos naturais, quando multiplicados por milhões de pessoas.
Na verdade estes problemas não são novos, apenas se agravaram sem que nenhum de nós fizesse o que quer que fosse para lhes por fim. Há muito que todos sabemos que a indústria da moda é das mais poluentes do mundo ou que as baterias dos telemóveis são destrutivas. Quantos de nós deixaram de vestir jeans fabricados por crianças em condições deploráveis ou de acorrer às lojas para adquirir o smartphone (smart ?) de última geração? A Amazónia morre todos os dias e aqui ao nosso lado Almaraz definha o Tejo. Continua-se a eleger líderes ignorantes e a promover guerras sem sentido.
Sem esforço, mais facilmente revejo o futuro da humanidade em filmes proféticos e apocalípticos como Mad Max ou em estórias da história como as de Steinbeck do que em contos idílicos do bom samaritano. É que, os bons samaritanos contam-se pelos dedos e forma quase todos assassinados por aqueles que pretenderam proteger. 
Mencionei outras batalhas que o ser humano travou e “venceu”, mas esta, a designada batalha das nossas vidas, é uma causa perdida, lamento dizê-lo mas é a minha convicção. É que, somos exímios quando o desafio são os outros. Colocamos todo o nosso ódio no nosso semelhante e lutamos até ao último fôlego. Ganham-se guerras, quase nunca pela repressão dos mais fortes, mas quase sempre pela resiliência dos mais determinados. Isso, quando o alvo é o outro. Mas esta é uma guerra diferente de todas as outras, é uma guerra silenciosa, é uma guerra em que cada um de nós é simultaneamente agressor e agredido, é uma guerra que temos de travar connosco, no nosso interior, na nossa cabeça, nas nossas entranhas. O campo de batalha somos nós mesmos, cada um de nós, o que me faz temer pela humanidade. Talvez esteja errado e esta provação que se adivinha seja o início de uma nova era, em que o “ter” dê lugar ao “ser” e abandonemos de vez os genes bárbaros que continuam a comandar as nossas vidas, e que Saramago tão bem ilustrou no seu Ensaio sobre a cegueira.

(texto por rever)

Imagem: banco de imagens livres Pixabay

domingo, 26 de maio de 2019

OS ADMIRÁVEIS

Queremos acreditar, mas só os reconhecemos quando se manifestam. Eles existem, vivem ao nosso lado, mas nem sempre os identificamos. Esquecemos depressa demais a grandiosidade do humilde e o valor do simples. Talvez, porque as coisas extraordinárias não se revelem aos olhos ou porque desperdiçamos tempo demais com a pequenez do mundo. Às vezes, é preciso que a claridade nos cegue para percebermos o deslumbre da visão. É então que compreendemos o valor do outro e a essência da vida. Os guerreiros ainda percorrem o caminho. Reconhecem-se e reconhecem os Homens de palavra, embora não precisem de a ouvir, porque perscrutam os pensamentos e o palpitar do peito. Ainda continuam a bater-se pela honra, pela dignidade, pela justiça, pela verdade. Lutam até as forças se esvaírem em sangue, e o sangue converter-se na matéria que há-de desvendar a luz.

Infelizmente, os admiráveis continuam a morrer na cruz. 
Conforta-nos, saber que são eles que se inscrevem na memória do tempo!

Imagem: banco de imagens livres, Pixabay

sábado, 25 de maio de 2019

OS INDECENTES (falsos)


Incluo os falsos na classificação plebeia dos indecentes.
Não me é difícil de compreender a ilusão, sobretudo a oficiosa, a designada mentira piedosa que visa tranquilizar as agruras da vida sem prejuízo do outro. Ou até aquele logro mais audaz, que mais não pretende do que omitir aspectos da vida, nos quais alguns gostam de se enchiqueirar.
Difícil, é aceitar a vilania suportada em falsidades, cuja finalidade única e suprema, é prostrar terceiros pelo negrume das vielas, sobretudo quando cada palavra é montada sobre uma pilha abjecta de outras tantas falácias.
Sendo certo que tudo o que acontece entre a vida e a morte, só é possível de ser realizado por pessoas, duvido que tal denominação possa ser atribuída aos enganadores proditórios, creio que devo designá-los por seres humanos, enquanto membros da espécie, já que, “ser pessoa”, exige certos atributos deônticos e morais.
E este é o cerne da questão, o de saber quantos Filhos do Homem alcançam a plenitude do “ser”. Bastará arrastarmo-nos pela vida, expressando animalesca existência, para granjear a condição?
Deixo-vos a dúvida.

Imagem: banco de imagens livres Pixabay

quinta-feira, 23 de maio de 2019

OS INDECENTES (detractores)

Passam pela vida com a rapidez de um comboio de alta velocidade.
Vêem acontecer em fotogramas desfocados.
A existência é uma caverna alegórica em eterno retorno,
uma miragem, que constroem sobre novelas ilusórias.
Da arte, do teatro, da filosofia, da literatura, da poesia, têm uma vaga noção,
são deuses inatingíveis.
Navegam à bolina em águas turbulentas como meteoritos erráticos,
sem destino, sem fé, sem!...
Não edificam, não criam, não apreciam,
Criticam, desdenham, destroem, morrem...
São existências tristes,

«Perdoai-lhes Senhor porque não sabem o que fazem».

“Ser”, inteiro, ainda que em pequenez total, é soberbamente maior do que “ter”, não sendo nada!


Imagem: banco de imagens livres, Pixabay

quarta-feira, 22 de maio de 2019

OS INDECENTES (escória)


As árvores morrem de pé e o Homens íntegros também. Aliás, estes até caiem de pé, para se erguerem mais fortes e grandiosos, apesar da humildade que irradiam. Caminham amiúde pelos vales da imperfeição, mas redimem-se ininterruptamente na demanda do aperfeiçoamento. O seu caminho é o do guerreiro, o bushido, onde não faltam a coragem, a cortesia, a compaixão, a justiça, a lealdade, a sinceridade e a honra. Virtudes ao serviço do outro. Realizam-se com o outro e pelo outro, qualidades que engrandecem quem as procura.

Só os escroques repudiam tais princípios. No mundo lamacento onde bafurdam e se afundam, não há lugar à decência, só a obscenidade impera. Deixai-os viver na sua rebaixolice, mas acautelai-vos, proliferam, infectam e conspurcam em cantos inimagináveis.
A peugada humana vai muito além do lixo que produz, quando o próprio Homem se reduz a escória.

Imagem: banco de imagens livres Pixabay.